Meu caminho para dentro

Era fevereiro de 2010. Véspera de carnaval no Brasil e eu desembarcava em Porto Alegre depois de um longo período fora. Estava vindo da Índia sem nenhum plano e com muitas ideias. Acima de tudo, insights, visões, sugestões involuntárias que se agarravam em minhas retinas e impregnavam a minha alma. Eram pistas de uma nova vida.

Algumas visões eram nítidas e com mensagens embutidas como legendas captadas por telepatia. Lembro de estar no taxi. Depois de sair do aeroporto, o ar quente de uma cidade que no verão na maior parte do tempo desagradável com temperaturas que faziam o suor escorrer pelas costas e têmporas mesmo estando parado. Eu completamente havia ignorado esse ponto quando comprei a passagem, isso era mais do que certo.

Do taxi eu via a minha cidade. Bastante machucada, descuidada e agora ainda piorada pela minha percepção de outros lugares como referência de capital, como Brisbane, no estado de Queensland, na Austrália. Lugares que haviam sido planejados e que com uma população infinitamente menor para um espaço ainda assim equivalente ao Brasil, tudo funcionava melhor.

O mais gritante provavelmente era o fato de que Queensland especificamente, durante o ano em que vivi lá, passava por uma implementação de políticas públicas valorizando a cultura e democratizando o acesso a práticas comunitárias em centros de lazer espalhados por todos os bairros e equipados com bibliotecas não só de grande e atualizado acervo, mas de uma diversidade de mídias e de formatos que antecipavam a preocupação com o impacto que acessibilidade e pertencimento geram nos territórios.

Eu sentia na maior parte do tempo que poderia viver lá pra sempre de tão maravilhoso que era. Então, porque mesmo que eu tinha voltado? Ah, sim, muitos motivos de fato de me traziam de volta. Não era exatamente que eu eu quisesse ter voltado.

Porém, lá estava eu e de certa forma era bom estar de volta. Dava uma certa emoção. Aquele céu azul, aquela sensação de Sul, de casa, de conhecido, ao menos, familiar e recheado de memórias afetivas. O taxi passava exatamente pelo Beira Rio, o estádio dos colorados até então – um dos dois tradicionais e rivais times de futebol do estado do Rio Grande do Sul.

Eu olhava pela janela. Percebia mudanças no trânsito, uma elevada e por baixo, onde eu passava, ganhava um recorte de céus azul que eu sabia acabavam na orla do Guaíba. E foi naquele pedaço de céu azul que apareceu pra mim essa ponte. Uma ponte cujas tábuas de que ela feita, apareciam no momento em que o pé assentava na altura do outro pé. E assim sucessivamente.

Nem era preciso muita legenda. Ainda assim eu ouvi algo como; “chaminha que o chão aparece, dois lugares precisam ser conectados por uma ponte que não existe e que nasce do desejo de cruzar esse espaço e da fé em caminhar e seguir na direção do que se acredita, mesmo que ainda não exista…”, entre outras variáveis do tema.

Bom, pareceu encorajador naquele momento. Eu cruzava Porto Alegre da Zona Norte, onde fica o aeroporto internacional para a casa do meu ex-sogro e ex-professor e, possivelmente, ainda meu amigo. Ele era um dos meus maiores afetos ou ao menos assim eu pensava, tanto que já na chegada fui pra lá.

Olhando com os olhos de hoje sei que desde o início eu estava sendo usada. Mas como eu não me importava com isso. De certa forma era como se isso fosse o certo Eu permaneci, sai e voltei muitas vezes dali. Mas não era mais a mesma coisa. Era como se ao ter terminado o relacionamento com o filho dele, agora eu alguma espécie de limite. Eu tinha uma história pra escrever, tava com garra pra recomeçar. Eu vi os olhares e li os pensamentos. Mesmo não querendo.

Era como se as informações simplesmente chegassem até mim. Às vezes atrasada na compreensão da mensagem, porque todas elas esbarravam na minha dúvida, quase que uma falta de permissão para questionar quem estava certa: eu ou a outra pessoa? Como se sempre inevitavelmente eu fosse estar errada, e o outro, quem quer que fosse, estaria certo. Então, o que queria dizer tudo aquilo?!

Um caminho para dentro me parecia um chamado irresistível. Ainda envolta em ilusões que geravam naturalmente a expectativa de que minha vida seria linda, fácil, fluida, milagrosa, cheia de flores desabrochando nas margens daquilo que deveria ser uma trilha, ao menos. Ao contrário, tudo o que eu via era uma quantidade absurda de dificuldades. Verdadeiros empecilhos, como uma cadeia de montanhas cravada de pedras e árvores e tudo mais que não podia ser visto à distância. Era só o início.

Uma forte sensação era tudo o que eu tinha como guia. As visões pareciam aleatórias apesar de numerosas e eu procurava não me apegar tanto a elas. Não que as pudesse ignorar, mas eu não as anotava num caderno ou perseguia como um quebra-cabeça que precisasse de resolução. Os desafios giravam em geral em torno de questões como tempo e dinheiro. Duas das principais ilusões e mecanismos de controle impostos pela 3D.

A sensação que eu perseguia era a de liberdade e amor como início, meio e fim para atos de criatividade que culminavam na expressão genuína do ser.

Veja o que eu estava começando a descobrir. Amor e liberdade existem como meio para uma finalidade. Amor e liberdade como qualidades fruto de contextos isentos de expectativa excessiva ou inapropriada, pressão ou condição.

E o que era o mundo senão uma esteira rolante onde nos mantemos em alta velocidade equilibrando nas mãos doses e doses exatamente desses três fatores?

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